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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Estado e Revolução: o retorno

Revolutas No 26 – julho de 2009

A crise trouxe novamente o debate  sobre a estratégia. Um debate crucial que articula temas como o programa, o papel do Estado, política de alianças, os instrumentos e os métodos para concretizar os objetivos almejados. Tais questões pressupõem, por sua vez, uma análise da realidade que determinará os objetivos e tarefas a serem realizados. Essa discussão mal começou. Mas podemos encontrar algumas visões em textos e livros, como o livro “A Nova Toupeira” de Emir Sader e nas teses que serão debatidas  no II congresso do PSOL. 

Não pretendemos – e nem poderíamos – discutir tais questões aqui. Mas queremos chamar a atenção para o retorno de posições que propõem o fortalecimento do papel do estado, conferindo-lhe um papel decisivo como “indutor de um novo modelo de desenvolvimento, que aponte para a construção do socialismo”, segundo uma das teses congressuais. Ou ainda, como defende outra tese, a defesa de  construção de um Estado democrático e forte” como um dos eixos programáticos com o “objetivo ampliar as capacidades e forças em sua relação com o mercado e subjugando-o”.

Tais posições não são novas. Mas a diferença é que nos dias atuais há a experiência dos governos de esquerda da América Latina (AL), que tem se constituído em paradigmas e referências para significativas parcelas de militantes dos movimentos sociais e organizações de esquerda.

Inconsistências

Qualquer suposição de que se possa controlar o estado e colocá-lo a serviço de políticas que favoreçam a população pobre e criem condições para avançar rumo ao socialismo, deve responder algumas questões fundamentais. Uma delas é como chegar, e por quais vias, ao controle do atual estado? Talvez a resposta óbvia, tendo em conta os processos na Venezuela e demais países, seja a via eleitoral.

Mas não se pode esquecer que os governos de esquerda  da AL foram produtos de circunstâncias concretas.  Durante o primeiro governo de Chavez não havia uma “revolução bolivariana” em curso. O marco do seu surgimento foi o amplo movimento de massas que salvou Chavez dos golpistas que o haviam seqüestrado em 2002. Da mesma forma, na Bolívia, a eleição de Morales em 2005 expressou a radicalização da grande revolta popular que em 2004 obrigou Sanchez de Lozada a fugir do país.

Dois aspectos merecem ser considerados. Primeiro, que os resultados dos processos latino-americanos não podem ser analisados em uma relação causal, ou seja, não podem ser considerados como conseqüências inevitáveis, uma vez que refletiram situações e correlações de força específicas àquelas sociedades. Segundo, qualquer generalização daquelas (e outras) experiências – produtos de circunstâncias concretas – em táticas ou caminhos a serem perseguidos é temerária, uma vez que se leva a implantar políticas que não correspondem  à realidade concreta do Brasil. Foi o caso das guerrilhas urbanas e rurais que tentaram repetir aqui e na AL uma estratégia que ocorreu em Cuba em uma situação completamente específica e atípica. É preciso observar o que é universal e particular em cada processo.

A idéia de que a partir do controle do estado se possa implementar um “novo modelo de desenvolvimento” exige que se explicite o que é  esse “novo modelo”. E, independente disso, cabe lembrar que ganhar o governo não significa ter o controle do estado. No caso do Brasil, o estado – e a própria estrutura social - é muito maior e extremamente mais complexo que em qualquer outro país da AL. As dificuldades seriam muito maiores, e qualquer política socializante envolveria a oposição não só da direita e do grande capital nacional e estrangeiro, mas da burocracia estatal, da mídia, dos parlamentos estaduais e locais, de setores significativos da classe média e do extenso aparelho repressivo que engloba as Forças Armadas, as Polícias Militares e Civis estaduais.

Por fim, é necessária uma boa dose de realismo ao analisarmos a situação da Venezuela e outros países latino-americanos. Não podemos nos ater aos governos, mas sim enxergar o todo, em especial a situação da classe trabalhadora e dos movimentos sociais. Surpreendentemente, Sader é realista quando afirma que aqueles governos são governos anti-neoliberais, mas que ainda não podem ser considerados anticapitalistas. Ele está correto.

Com relação ao governo Chavez e os demais governos, não é possível qualquer apoio acrítico e incondicional. Apoiamos as suas medidas progressistas, que confrontem o capital e o imperialismo, e que favoreçam a população. Mas não podemos apoiar medidas que tendem a apertar o controle  sobre os movimentos e a promover um papel cada vez mais centralizador do estado.

Portanto, para nós o fundamental é o fortalecimento da auto-organização e da consciência revolucionária da classe trabalhadora e dos explorados. É isso que possibilita a auto-emancipação dos trabalhadores, e não o fortalecimento do estado.

A natureza do estado

Por trás de tudo isso está o debate sobre a natureza do estado. Fala-se em tomar o estado, controlar o estado. Mas o estado não é uma “coisa” que possa ser tomada para que se modifique sua natureza conforme a vontade. A estrutura do aparelho de estado burguês expressa as relações sociais preponderantes no capitalismo, baseadas na exploração de uma classe majoritária na sociedade – a classe trabalhadora – por uma classe minoritária – a burguesia . O estado existe precisamente para manter e assegurar essas relações de exploração através dos seus vários mecanismos: parlamento, forças armadas, polícia.

É verdade que o Estado sofre mudanças. Assume formas e regimes políticos diferentes, mas até o limite da “ossatura institucional” que é o conjunto de instituições e mecanismos de poder que não são porosos à participação e controle social. Em outras palavras, o estado não pode ser modificado a ponto de garantir o controle social, com direito à eleição e revogação dos mandatos dos parlamentares, funcionários estatais, forças armadas e polícia. Emir Sader afirma que o estado é um “espaço em disputa”. Ele está errado. Só poderíamos admitir tal afirmação em termos parciais e limitados. Há espaços a serem disputados, mas não o núcleo duro do aparelho estatal. Mas ele e outros teóricos como Carlos Nelson Coutinho parecem convencidos de que é possível disputar e transformar o conjunto do aparelho de estado. Parece que muitas das lições trágicas proporcionadas por experiências históricas como o governo de unidade popular de Allende no Chile não foram aprendidas. Ou outras conclusões foram extraídas desses processos.

Para nós, as análises de teóricos como Marx, Rosa, Lenin, Trotsky e Gramsci – cuja obra do cárcere foi “seqüestrada” por Togliatti e o eurocomunismo – permanecem referências decisivas para a compreensão da natureza e do papel do estado burguês. E seus ensinamentos devem compor a base de qualquer estratégia revolucionária conseqüente que pressupõe a ruptura como capitalismo e a construção do socialismo como uma obra da maioria e não de uma minoria substitucionista que age “em nome” da classe trabalhadora ou da sociedade.

Conclusão

Finalmente, um aspecto fundamental decorre das experiências do chamado “socialismo real”. Naqueles países não havia mercado nem capital privado. A economia era controlada a partir de cima por uma burocracia que, tendo o estado sob seu controle, determinava todo o processo produtivo.  Esses regimes não caíram por conta de qualquer conspiração da CIA, mas sim por conta da dinâmica de suas economias que engendravam o mesmo tipo de contradições existentes no capitalismo de mercado. E seus governantes foram derrubados pelas mesmas massas cujos interesses supostamente representavam.

A forma estatal da propriedade não é, em si, superior à forma privada. Depende de que tipo de estado se fala, de quem controla esse estado e como se dá esse controle. Uma transição socialista só pode ser conduzida pela classe trabalhadora “alçada à condição de classe dominante”, o que significa não um Estado capitalista “forte”, mas um semi-estado, baseado em órgãos democráticos – os conselhos de trabalhadores e trabalhadoras da cidade  e do campo - que exercem o poder diretamente a partir da base da  sociedade.

Defender essa perspectiva revolucionária não nos permite alimentar quaisquer veleidades sobre controlar o estado burguês para avançar rumo ao socialismo. Mesmo que tais políticas sejam chamadas de “táticas”, não o são. Afinal, o stalinismo e os Partidos Comunistas também defenderam “táticas” - como a visão etapista de revolução e a “tática” da frente popular - que conduziram a derrotas trágicas que custaram não apenas a vida de milhões, mas a dramáticos retrocessos na luta pela emancipação humana.



terça-feira, 8 de abril de 2008

Uma luta de classe - contra a Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto

Revolutas No 25 - Abril de 2008

A ocupação do Ibama de São Paulo no dia 12 de março uma ação importante, em um momento decisivo da luta contra a Usina Tijuco Alto, e obrigou o Ibama a negociar. Mas o foco principal não deve ser a mesa de negociações. Quais são as lições da ocupação e qual é o caminho capaz de levar a uma vitória sobre Antonio Ermírio?  No dia 12 de março centenas de manifestantes ocuparam o prédio do Instituto Brasileiro do Meio ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em São Paulo. A maioria veio do Vale do Ribeira, demonstrando a sua disposição em lutar contra a construção da UHE Tijuco Alto e manifestar sua indignação em relação ao parecer técnico favorável à obra divulgado semanas antes pelo órgão.

Uma indignação justa, pois o Ibama em seu parecer não havia levado em conta nenhum dos questionamentos e críticas apresentados nas Audências Públicas de junho passado.

Uma atitude criminosa, uma vez que a UHE servirá apenas gerar energia barata e abundante para a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), de propriedade de Antonio Ermírio de Moraes, o maior e mais rico empresário brasileiro.

Mas para o Vale do Ribeira a obra só trará pobreza e catástrofe, não só destruindo o ambiente, mas expulsando e afetando a vida de milhares de ribeirinhos, pescadores e quilombolas.

O Ibama negocia, mas...

Diante da ocupação, a direção do Ibama aceitou negociar com representantes das comunidades do Vale do Ribeira.

Ao final, comprometeuse a não emitir qualquer decisão em relação à viabilidade da Usina, sem antes avaliar os questionamentos que as comunidades apresentaram até hoje. Até o dia 17 de abril, estará acolhendo sugestões sobre o seu parecer técnico. E, além disso, comprometeu-se a realizar uma reunião pública no Vale do Ribeira.

O resultado da negociação foi considerado, com toda a razão, uma vitória por todos os participantes. Um canal de discussão foi aberto graças à mobilização e a ocupação da sede do Ibama de São Paulo.

Mas, ao mesmo tempo, o Ibama não cumpriu até este momento com a promessa de realizar uma reunião pública.

Reuniões para acertar a data foram sucessivamente desmarcadas.

Enquanto isso, o diretor de licenciamento do Ibama, Roberto Messias, expressa na Carta Capital o que realmente pensa a respeito. Para ele, os questionamentos são recorrentes e já haviam sido acolhidos nas Audiências Públicas.

E afirmou que o “Ibama analisou e aprovou Tijuco Alto”.

Essa e outras manifestações do Sr Roberto Messias demonstram que há uma decisão política tomada de garantir a construção da UHE Tijuco Alto.

É possível confiar no Ibama e no MMA ? A política do Ibama tem sido clara. A ordem é “aprimorar” o processo de licenciamento, para que as licenças saiam o mais rápido possível.

Também é esta a diretriz do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Um documento com “Orientações estratégicas” é claro neste aspecto. Afirma que o Sistema de Licenciamento Ambiental deve estar à altura das demandas de crescimento econômico, e cita literalmente o PAC do governo Lula.

Tudo em nome de um “desenvolvimento sustentável”, que não é nem desenvolvimento e menos ainda é sustentável ambientalmente.

Recentemente foi divulgada a notícia de que o Ministério de Minas e Energia (MME) havia encomendado um estudo sobre as UHEs ao Banco Mundial. Não foi a primeira vez. Pedido semelhante havia sido feito anteriormente, sobre os projetos de UHEs no rio Madeira. O Banco Mundial, atendendo ao pedido do MME, apontou o licenciamento e a interferência do Ministério Público Federal como fatores que atrasam a construção das UHEs no Brasil. E fez várias sugestões para o Ministério.

Muitos ambientalistas tem ilusão no Ibama e no MMA. Pensam que há contradição entre o MMA e a política do governo Lula. É verdade que no início Marina Silva enfrentou publicamente decisões como a liberação dos transgênicos.

Teve papel importante na COP-8 em Curitiba.

Mas, ao mesmo tempo, não vacilou em apoiar projetos como a Transposição do Rio São Francisco. Dividiu o Ibama através de uma Medida Provisória, despertando a ira dos servidores do Ibama, que realizaram uma greve heróica.

De um lado ela compra briga com representantes do agronegócio como, o governador do Mato Grosso Blairo Maggi, sobre o avanço do desmatamento na Amazônia.

De outro lado, ela é responsável direta pela lei que permite exploração comercial “sustentável” de florestas públicas.

O que foi feito de positivo pelo MMA de Marina Silva para a preservação ambiental é pouco diante do apoio às políticas predatórias e socialmente excludentes do governo Lula. Não interessa se esse apoio foi ativo ou passivo, o fato é que o MMA tem sido claramente um instrumento a serviço da política do governo federal, de crescimento econômico que favorece os grandes empresários nacionais e estrangeiros, enquanto destina migalhas aos pobres. O PAC é o maior exemplo. A autorização para a construção das usinas hidrelétricas no Rio Madeira foi feita sem consideração aos questionamentos de movimentos sociais como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), contra a resistência de indígenas e populações ribeirinhas.

Organizar, ampliar e fortalecer ações diretas A resistência à Usina Tijuco Alto é ampla, composta por vários movimentos e organizações.

No seu interior há setores combativos, de luta, que priorizam as mobilizações sociais, como é o caso das organizações ligadas à Via Campesina. Mas outros setores nutrem ilusões quanto a soluções negociadas, privilegiam os acordos com empresários e o governo federal. E se sentem pouco à vontade quando se trata de ações como a ocupação do dia 12 de março.

Os socialistas devem participar dessas lutas sempre tendo em conta a importância da unidade. Posturas que buscam forçar as diferenças e provocar divisões, ainda que em nome de uma política mais combativa e firme, são equivocadas. Os socialistas buscam sempre ampliar o movimento, construir ações em torno das bandeiras e reivindicações comuns. Ao mesmo tempo, não escondem suas posições. Expõem e debatem suas idéias de forma clara, aberta, paciente e sem provocar intrigas.

Mas há momentos decisivos da luta em que a clareza de idéias e a adoção de políticas corretas é fundamental, porque podem determinar a vitória ou a derrota do movimento.

E a luta contra a Barragem de Tijuco Alto já está nessa fase decisiva. A concessão da Licença Prévia à usina será uma derrota que abrirá caminho para mais três usinas no Vale do Ribeira. Isso seria uma catástrofe.

Reafirmamos que a abertura de um canal de negociação foi uma vitória. Mas a principal vitória não foi esta.

Nem sequer a divulgação do movimento através da mídia.

A grande vitória da ocupação do dia 12 de março foi mostrar que a ação direta é a arma mais eficaz de luta. Foi impor uma derrota política ao Ibama que, pouco depois de ter aprovado a obra, foi obrigado a reconhecer que haviam questionamentos ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela CBA que não haviam sido considerados pelo órgão.

Não nos enganemos. Não esperemos que o Ibama seja convencido a negar a Licença Prévia. No melhor dos casos, e ainda assim improvável, irá adiar a decisão, solicitar novos estudos à CBA, como fez nas vezes anteriores. Enquanto isso, Antonio Ermírio continuará, como vem fazendo pacientemente há 20 anos, investindo, pressionando os moradores, comprando terras e políticos da região, tentando tornar o seu projeto irreversível.

Não podemos deixar a peteca cair. Aproveitar o estado de espírito da militância aguerrida que se mobilizou e ocupou o Ibama no dia 12 de março. Divulgar a luta, ampliar o apoio, construir comitês de luta contra a usina de Tijuco Alto. Fazer abaixo assinados, debates e manifestações.

Acumular força para novas ações de massa.

Esta é uma luta que coloca Antonio Ermírio, o maior capitalista brasileiro, e o governo Lula de um lado e de outro, milhões de trabalhadores, pescadores, quilombolas e ribeirinhos.

Uma luta contra a política de destruição ambiental e geração de miséria do governo Lula, para quem usineiros são “heróis’, enquanto indígenas, quilombolas e o meio ambiente são “entraves para o desenvolvimento”.

O que está em jogo não só no Vale do Ribeira e no resto do Brasil e do mundo, é a apropriação de riquezas e recursos naturais pelos grandes capitalistas. As corporações e Estados capitalistas se voltam para a apropriação da água, petróleo, minérios e energia, cuja importância estratégica é clara.

Ou seja, uma luta de vida ou morte. Que coloca em confronto classe contra classe.


quinta-feira, 2 de março de 2006

PSOL: equívocos e recuos


Revolutas No20 – Março de-2006

A resolução aprovada pela última reunião da Direção Nacional (DN) do PSOL tem gerado polêmica e preocupação em amplos setores da militância. E com razão, pois representou um retrocesso em muitos aspectos. Discutimos alguns pontos que nos parecem ser as mais importantes e preocupantes.

 Nacional em vez de Congresso A decisão de realizar uma Conferência Nacional em vez de Congresso repercutiu como um balde de água fria sobre a militância.

Desde janeiro do ano passado, quando se realizou o Encontro Nacional em Porto Alegre durante o Fórum Social Mundial, a realização do Congresso esteve no centro da agenda do partido. Temas relacionados ao Congresso, estatuto, programa, conjuntura e tática, tática eleitoral, seriam debatidos pelo conjunto da militância e decididos em um Congresso democrático.

Mas nos últimos meses, mesmo com a divulgação de teses e a realização de debates dentro do partido, vinham crescendo os rumores de que não haveria mais Congresso. Em março a Executiva aprovou uma resolução que limitava a pauta do Congresso à discussão eleitoral.

E, finalmente, no dia 23 de abril a DN aprovou a proposta apresentada pela Executiva de realizar, em vez de Congresso, uma Conferência Nacional, com delegados eleitos na proporção de 1 para 30. Se o Congresso fosse realizado o critério seria de 1 delegado para 10 militantes.

A principal justificativa para essa decisão é de que não haveria condições políticas para a realização de um Congresso, uma vez que não haveria uma unidade política interna. Mas esse argumento é equivocado.

A ausência de unidade e a persistência de relações tensas entre correntes internas, não podem ser resolvidas se não houver um processo de construção de unidade a partir de um debate político democrático e fraterno. E, por sua vez, tal debate não é possível sem instrumentos e instâncias adequadas.

Se persistir a atual situação interna do partido, sem instâncias e mecanismos partidários que garantam um debate democrático, a tendência é que as tensões continuem e se agravem.

O I Congresso, além das inúmeras decisões políticas que deveria discutir e aprovar, teria ainda um papel determinante de estabelecer o patamar de unidade política atual e as instâncias e mecanismos que possibilitem um debate democrático e fraterno.

Assim, a ausência de unidade é um argumento pró-Congresso, e não contra o Congresso.

Além disso, o critério para eleição de delegados é excludente.

Não permitirá uma participação ampla da militância partidária. Inviabiliza a participação de centenas de núcleos, agrupamentos pequenos e militantes independentes. Camaradas que, exatamente, vinham fazendo a discussão da pauta original do Congresso. É um duplo desrespeito.

E, por fim, fica a questão.

Qual o papel e a competência da Conferência Nacional, uma instância que nem sequer está prevista no Estatuto partidário? 2. A Frente de esquerda A resolução da DN reafirma a formação de uma frente eleitoral composta por PSOL, PSTU e PCB. Mas ao mesmo tempo toma decisões que contradizem essa política.

A indicação de César Benjamin como candidato à vice-presidência causou desconforto e tensão, principalmente com o PSTU, que pleiteia a vice-presidência.

Porém, não se trata simplesmente de uma guerra de nomes. E saim de método.

Uma frente política eleitoral deve funcionar de maneira democrática, sem imposições de um partido sobre os demais. A discussão programática, o perfil da campanha, devem ser debatidos entre os partidos da frente, que, com base num amplo debate, envolvendo as suas respectivas militâncias, devem definir os nomes para vice-presidente, senado, etc.

O que está ocorrendo é que, em primeiro lugar, a condução da frente está sendo feita de maneira equivocada, em que o PSOL assume uma condição hegemonista, enquanto os demais partidos são relegados à condição de atores coadjuvantes.

E, em segundo lugar, erra ao estabelecer uma discussão sobre os nomes antes de definir os aspectos políticos da campanha (plataforma, perfil político da campanha).

Além disso, a resolução apresenta passagens vagas, de leitura dúbia, que abrem brechas para alianças regionais com partidos que não apresentam o perfil político adequado a uma campanha eleitoral de combate ao neoliberalismo e o imperialismo, com corte classista.

Abre espaço para alianças com partidos como o PDT que abriga a reacionária Força Sindical, e o PPS de Roberto Freire, que apoiou o governo FHC. Partidos que dificilmente poderiam ser chamados sequer de progressistas.

Se há setores nas bases desses partidos que estejam em processo de ruptura pela esquerda, devemos sim procurálos para que assumam a ruptura política com esses partidos (ou outros) e encampem a nossa plataforma.

Mas se isso ocorrer será uma exceção, e não a regra.

A luta das comunidades contra a Barragem do Tijuco Alto


Revolutas No 19 – Março de 2006

Há quase 20 anos os quilombolas, índios, populações ribeirinhas do Vale do Ribeira e o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) têm resistido às investidas do empresário Antonio Ermírio de Moraes.

Ele quer construir uma barragem em Tijuco Alto, que fica próximo à fronteira com o Paraná. Por conta da luta e das campanhas, Antonio Ermírio não conseguiu realizar o seu sonho de ter uma usina para gerar energia só para a sua empresa, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

A última vez que a CBA teve o licenciamento ambiental negado foi em 2003. Mas a empresa não desistiu. Investiu mais dinheiro e fez mudanças no projeto para amenizar o impacto ambiental.

Em outubro do ano passado, encaminhou ao IBAMA novos documentos.

O parecer do IBAMA pode sair nas próximas semanas.

Um inimigo declarado do meio ambiente, das comunidades tradicionais e dos pobres Antonio Ermírio de Moraes é bastante conhecido por suas posições políticas de direita. Tucano convicto, apóia hoje o nome de Alckmin para a Presidência da República. Mas também é conhecido por sua cruzada contra os licenciamentos ambientais, que para ele não são mais que obstáculos para o “progresso”. Certamente, ele só está pensando no progresso dele e de suas empresas.

O pior é que não é se trata apenas da construção de uma barragem. Há ainda mais 3 projetos de barragens no Vale do Ribeira. Caso Ermírio consiga a licença para construir a Barragem de Tijuco Alto, o caminho estará aberto para as demais.

A catástrofe anunciada Para começar, o Rio Ribeira do Iguape é o último grande rio do Estado de São Paulo que não tem barragens. A barragem inundaria uma área enorme no coração da Mata atlântica, com impactos ambientais enormes: perda de paisagens, diminuição de peixes e animais, assoreamento, contaminação das águas devido a resíduos de mineração realizada em períodos anteriores (em especial, chumbo), desmatamento de mais de 5 mil hectares, inundação de centenas de cavernas e de sítios arqueológicos.


Além disso, a barragem afetaria diretamente a vida de milhares de pessoas que vivem na região.

São pequenos agricultores que serão expulsos da região, impossibilitados de assegurarem seu sustento.

Racismo ambiental Na região existem mais de 50 m e i o a m b i e n t e R.Polly quilombos, sendo que alguns já conseguiram a titulação de suas terras. Desse total, o Movimento dos Ameaçados por Barragens (MOAB) estima que cerca de 37 quilombos, situados em 5 municípios do Vale do Ribeira, serão atingidos direta ou indiretamente pelas obras pretendidas por Antonio Ermírio de Moraes.

Esse quadro caracteriza, de modo inquestionável, um caso de “racismo ambiental’. Segundo o sociólogo Robert Bullard, o conceito “racismo ambiental” se refere a “qualquer política, prática ou diretiva que afete ou prejudique, de formas diferentes, voluntária ou involuntariamente, a pessoas, grupos ou comunidades por motivos de raça ou cor. Esta idéia se associa com políticas públicas e práticas industriais encaminhadas a favorecer as empresas impondo altos custos às pessoas de cor.” (“Ética e Racismo Ambiental”).

Truculência e mentiras Para conseguir apoio aos seus projetos, Ermírio usa a velha tática da mentira, afirmando que as barragens trarão “desenvolvimento”.

Ao mesmo tempo pressiona famílias a venderem a suas terras à CBA, gerando um clima de terror e insegurança entre as populações locais. Ele demonstra que está disposto a qualquer coisa para construir as barragens.

Ampliar a resistência No Vale do Ribeira, vários movimentos sociais, comunidades tradicionais, o MOAB e sindicatos estão resistindo aos ataques de Antonio Ermírio de Moraes.

E a solidariedade na luta tem dado certo. Em manifestação na cidade de Registro, em novembro passado, comunidades guarani e quilombolas do interior e da faixa litorânea do Vale do Ribeira caminharam juntas pelas principais avenidas da cidade, exigindo a titulação de seus territórios e para protestar contra a construção de barragens no Ribeira.

Mas é preciso criar um movimento muito mais amplo, em todos os estados e municípios do País para denunciar os projetos de Antonio de Ermírio de Moraes e exigir que o IBAMA ponha um fim definitivo às suas pretensões.

Consideramos que esta é uma campanha fundamental que deve ser implementada o mais rápido possível. Conclamamos a todas e todos a participar dessa luta, seja de que forma for. Qualquer colaboração, qualquer atividade, é muito importante.